Em Vancouver, Suíça e Argélia se enfrentam nesta quinta-feira em um duelo de oitavas de final carregado de história e de contas por acertar com o passado. O vencedor avança para as oitavas de final da Copa do Mundo da América do Norte, onde enfrentará Colômbia ou Gana. Para ambas as seleções, a partida representa muito mais do que um simples jogo eliminatório: é a chance de superar décadas de frustrações em mata-matas mundiais.
A rivalidade entre esporte de alto rendimento e o universo dos investimentos bilionários em competições globais segue crescendo em diferentes frentes - quem quiser entender como o dinheiro molda o esporte moderno pode conferir tudo sobre o recorde de investimentos da T1 no esports, um fenômeno que cada vez mais conecta o futebol tradicional às novas formas de competição organizada. No campo, porém, as questões são mais antigas e mais urgentes: a Suíça não vence uma partida eliminatória de Copa do Mundo desde 1938, oito décadas e meia de eliminações consecutivas em mata-matas. A Argélia, por sua vez, jamais passou de uma fase eliminatória em toda a sua história mundialista.
A Suíça de Xhaka e Manzambi: geração com velho trauma
Os suíços chegaram à fase eliminatória pela liderança do Grupo B, com sete pontos. O início foi tropeçante - empate em 1 a 1 com o Qatar -, mas as vitórias sobre Bósnia-Herzegovina e Canadá, anfitriã do torneio, consolidaram a classificação. Contra os canadenses, Rubén Vargas e Johan Manzambi balançaram as redes, ambos após entrarem como substitutos no segundo tempo.
Manzambi, de 20 anos, é um dos nomes mais comentados deste Mundial. Revelado pelo Freiburg, que disputou a final da Liga Europa recentemente, o atacante anotou três gols em três chutes a gol, aproveitamento impecável para um estreante. Neste século, apenas Thomas Müller, em 2010, com cinco gols, e Kylian Mbappé, em 2018, com quatro, marcaram mais do que ele em uma única edição da Copa antes dos 21 anos. É uma companhia que dispensa adjetivos.
Mas a liderança da equipe continua nas botas de Granit Xhaka. O capitão, que disputará o jogo de número 150 com a camisa helvética, foi o jogador com mais passes que romperam linhas na fase de grupos - 53 ao todo -, e apenas Rodrigo Bentancur (29) recuperou mais a posse do que ele (24). Xhaka busca algo inédito: levar a Suíça a três vitórias seguidas numa mesma Copa, feito que a seleção jamais conquistou.
O histórico recente, porém, pesa. Cinco dos últimos nove mata-matas importantes da equipe foram decididos nos pênaltis, com quatro eliminações. Nos últimos 12 jogos eliminatórios, a Suíça venceu apenas um dentro dos 90 minutos regulamentares, com cinco empates e seis derrotas. O técnico Murat Yakin tem a missão de encerrar um jejum que já dura 88 anos.
A Argélia de Petkovic e Mahrez: chegando pela porta dos fundos, mas chegando
A história da classificação argelina para as oitavas é, por si só, digna de um documentário. Nas rodadas finais do Grupo J, Argélia e Áustria precisavam de apenas um ponto para avançar e o jogo caminhava para um empate conveniente - até Riyad Mahrez resolver ignorar o combinado tácito. O camisa 26 colocou os Fennec Foxes à frente depois de uma jogada que envolveu 110 passes consecutivos, durando mais de cinco minutos sem que nenhum jogador austríaco tocasse na bola, quebrando um recorde histórico. Os austríacos empataram nos acréscimos, o placar ficou em 3 a 3, e ambas as equipes avançaram às custas do Irã.
Antes disso, a Argélia havia perdido por 3 a 0 para a Argentina e vencido a Jordânia por 2 a 1. O saldo os colocou entre os oito melhores terceiros colocados do torneio, suficiente para garantir a continuidade. No entanto, o tropeço frente à Áustria reforçou uma estatística sombria: desde a histórica vitória sobre a Alemanha Ocidental em 1982, a Argélia não vence jogos contra seleções europeias em Copas do Mundo - quatro empates e cinco derrotas.
A esperança de mudar isso passa por Ibrahim Maza, o jovem criativo do Bayer Leverkusen nascido em Berlim e ex-integrante das categorias de base alemãs. Apelidado de "Mazadona", ele foi o jogador com mais dribles bem-sucedidos na fase de grupos - 13 ao total, incluindo seis dos seis tentados contra a Áustria. Maza representa a nova cara da seleção argelina, formada em grande parte por jogadores que cresceram na Europa.
Mahrez, aos 35 anos, também nunca esteve tão próximo de deixar sua marca definitiva numa Copa. Com três participações em gols até aqui, ele já detém o recorde individual da Argélia em uma única edição do torneio - e marcou seus primeiros gols mundialistas justamente agora, no ocaso da carreira.
O duelo dentro do duelo: Yakin contra Petkovic
Há um capítulo extra que torna este confronto ainda mais rico: os técnicos das duas seleções têm uma história compartilhada. Murat Yakin assumiu o comando da Suíça há cinco anos exatamente no lugar de Vladimir Petkovic, que depois de um longo e bem-sucedido período à frente dos helvéticos passou por Bordeaux antes de assumir a Argélia. Petkovic levou os argelinos às quartas de final da Copa Africana de Nações, conduziu a classificação nas eliminatórias da CAF e agora está a um jogo de levar o país às oitavas de um Mundial.
Nesta quinta-feira em Vancouver, o ex-treinador e o seu sucessor ficam frente a frente em lados opostos. Para um, é a continuação de uma missão histórica com a Suíça. Para o outro, é a prova de que o legado construído foi sólido o suficiente para ser exportado e aperfeiçoado. Seja qual for o resultado, o futebol ganha com este tipo de narrativa.